DESAFIOS COMUNS EM CONSULTA

Desafios comuns nas Consultas Astrológicas

por Maurice Fernandez

 

A Astrologia tem capturado de forma irreversível os corações e mentes de muitos de nós, muitas vezes de maneiras inesperadas.

 

Foi um livro sobre signo solar, uma leitura transformadora, ou na verdade a tentativa de desmentir a astrologia que nos colocou em nosso caminho como estudantes e praticantes? No meu caso, eu me encontrei quando a Astrologia me encontrou. Minha confusão, alienação e vazio persistente se dissipou quando a astrologia entrou em minha vida; a vida fez sentido, talvez pela primeira vez. Suspeito que muitos outros experimentaram um senso semelhante de empoderamento por meio deste estudo.

A astrologia fornece uma perspectiva inigualável de vida, e ainda assim pode ser desafiador traduzir este vasto campo de conhecimento com muitas camadas em informações acessíveis. A verdade pode ser poderosa, até mesmo avassaladora, e sua revelação exige que seja feita com cuidado.

A experiência e a humildade são essenciais para a prática adequada, com a intenção consciente de não fazer nenhum mal.

Os astrólogos podem ter estudado para saber sobre planetas ou técnicas preditivas, mas poucos programas educacionais realizam treinamento em técnicas de atendimento e ética em astrologia.

Considere essa realidade onde os astrólogos podem ter acesso a algumas das preocupações mais íntimas da vida de uma pessoa, ainda que sem ter a verdadeira experiência em técnicas de atendimento, uma comunicação consciente e/ou consciência cultural. O risco de erros é considerável!

Por meio do meu envolvimento com a OPA encontrei dezenas de relatos de pessoas que se sentiram prejudicadas durante as leituras porque o astrólogo não transmitiu as informações de forma hábil. Isto pode acontecer com os melhores de nós; todos nós temos nossos pontos cegos, portanto a autocritica é importante. Com a crescente exposição da astrologia nos principais meios de comunicação e o meio crescendo exponencialmente, quanto tempo levará para que uma experiência de leitura negativa passe por algum processo jurídico? Pode ser uma boa hora de se implementar um treinamento em técnicas de atendimento como pré-requisito para a prática da astrologia.

Pode ser que nem sempre seja a falta de habilidade do astrólogo que leve a uma espécie de crise. Os clientes podem trazer suas próprias inseguranças e mecanismos de defesa para a sala de consulta, e os profissionais devem lidar com os desafios potenciais da melhor forma possível. Queremos oferecer ajuda e serviço da maneira mais eficaz, e isto requer navegar nas sensibilidades da nossa própria condição humana.

 

Aqui estão algumas questões importantes em uma consulta que merecem destaque:

 

COMUNICAÇÃO EQUILIBRADA

 

Utilizando termos astrológicos

 

Uma das muletas usadas mais frequentemente por astrólogos é falar com jargão astrológico.

Para um astrólogo, dizer “você vai ter uma quadratura Marte/Saturno que vem por aí”, significa muito; três palavras que envolvem uma gama de experiências. No entanto, para um cliente, mesmo com algum conhecimento de astrologia, isso pode permanecer abstrato e difícil de integrar. É essencial encontrar o vocabulário certo para destrinchar este conceito em uma linguagem acessível – por exemplo: “Este pode ser um momento em que você precise revisitar suas motivações e modos de ação. Qualquer que seja o objetivo que estabeleça para você mesmo, seja paciente e consistente, e os resultados se mostrarão a longo prazo. Insistir demais poderá causar rupturas, bloqueios, ou mesmo lesões físicas”.

Diversos clientes relatam que obtiveram muito pouco ou nada de uma leitura, ou simplesmente esqueceram o que foi realmente dito, porque as informações passaram batido.

 

Resultado: Faça uma distinção entre uma consulta de astrologia e uma

aula de astrologia. Em uma consulta, fale com o cliente sobre a vida dele, não sobre os aspectos do mapa dele. Algumas referências astrológicas podem ser úteis em pequenas doses.

 

Analisando o mapa planeta por planeta

 

Uma habilidade importante na interpretação de mapas é a arte da síntese, reunindo todos os componentes do mapa de forma coesa, da mesma forma que misturamos todos os ingredientes para fazer um bolo; a fusão de todos esses ingredientes deve fazer uma sobremesa saborosa. A falta de síntese adequada dos componentes do mapa pode se deparar com componentes fragmentados e contraditórios; passar por cada planeta, um de cada vez, pode confundir o cliente.

Por exemplo, pode-se começar com um Sol em Sagitário e o descrever como aventureiro e amante da liberdade e depois prosseguir para a Lua em Câncer, e descrever como essa Lua representa um anseio por segurança e preferência pela rotina familiar. Em outras palavras, duas afirmações completamente contraditórias se sucedem. A maioria dos mapas tem afirmações contraditórias; é a norma, e ainda assim, a maioria de nós não tem personalidades divididas. Nesse caso, encontrando a maneira de sintetizar o Sol em Sagitário com uma Lua em Câncer começa com a busca de seus pontos em comum, dizendo, por exemplo: Você é muito leal a você mesmo e sua autenticidade e não quer se comprometer com as necessidades pessoais – as coisas têm que acontecer a seu tempo. Ou Quando você vai para uma aventura, tem que ser nos seus termos, e você precisa ter um plano B. Estas declarações fundem as qualidades contraditórias das duas colocações em algo coeso e relacionável.

 

Resultado: A síntese de mapas geralmente melhora quanto mais mapas fazemos, portanto, prática (supervisionada?) é essencial. Nossos clientes precisam ouvir o produto final de nossa síntese, não nosso processo de pensamento.

 

  Conversa e escuta

 

Devemos lembrar que uma consulta não é uma palestra. O astrólogo pode facilmente perder a atenção de seus clientes quando faz um monólogo sobre a narrativa do mapa sem verificar com os clientes se eles estão no caminho certo. Sugere-se fazer uma pausa na conversa depois de no máximo 10-15 minutos e perguntar aos clientes se eles se identificam com os pontos levantados, ou se têm algo para compartilhar. Isto também ajuda o astrólogo avaliar se os clientes entenderam o que foi dito, da maneira que foi pretendida.

Por outro lado, os clientes podem ir a uma consulta astrológica e compartilharem suas histórias em detalhes elaborados, tirando um tempo significativo da consulta. Embora possa ser útil servir como um ouvinte e deixar o cliente desabafar, o que chega até nós como queixa é que estes clientes comumente expressarão insatisfação porque foram os que mais falaram e o astrólogo não forneceu novos conhecimentos a partir de seu mapa. É o papel do astrólogo manter os limites, então com habilidade procure direcionar a conversa de volta para o mapa, ao menos que o cliente insista em continuar a falar.

 

Resultado: O astrólogo é quem está encarregado de conduzir a consulta, e deve evitar ser influenciado por um cliente que está meio perdendo o rumo. As sessões de astrologia são geralmente sessões únicas, portanto os clientes normalmente têm expectativa de receberem orientação por seus honorários.

 

DISCUTINDO POSICIONAMENTOS DIFÍCEIS DOS MAPAS

 

Quando sentimos a necessidade de destrinchar uma configuração desafiadora do mapa ou falar sobre um trânsito difícil, é preciso ter consciência para comunicar tais informações de forma eficaz. O princípio orientador é que nós estamos lá para ajudar nossos clientes, não para mostrar o quanto sabemos. A primeira pergunta é se é necessário e útil para nosso cliente levantar tal questão difícil; nem tudo no mapa precisa ser discutido, apenas o que é relevante e útil. Em primeiro lugar, será que precisamos mexer naquilo?

Se o astrólogo concluir que destrinchar a configuração difícil atenderá o cliente, é importante medir a receptividade do cliente e fazer isso pouco a pouco. Fazer perguntas pode ser um bom ponto de partida. Vamos usar um exemplo de um cliente com uma conjunção Lua/Plutão natal que em breve será desafiada por Saturno. O astrólogo pode perguntar sobre seu atual status familiar: “Você é casado? Você mantém contato com seus pais? Você sente alguma frustração em sua vida familiar?” Se o cliente responder: “Estou no relacionamento melhor e mais amoroso que existe”, ou por outro lado, “Estou à beira de um divórcio”, tudo isto poderá fornecer contexto para o astrólogo abordar este trânsito que se aproxima.

A astrologia pode servir como uma ferramenta preventiva. O motivo pelo qual podemos querer abordar posicionamentos difíceis é equipar nosso cliente com estratégias eficazes para tirar o melhor proveito da situação, e talvez minimizar ferimentos. Eu pessoalmente sou da opinião que os planetas não estão “lá fora para nos pegar,” da mesma forma que o inverno não existe para nos fazer sentir terrivelmente com frio. Ciclos planetários, por mais desafiadores que sejam, refletem o desdobramento de processos naturais universais; com preparação e compreensão, estas influências podem ser alquimizadas em mudanças benéficas em nossas trajetórias de vida.

O astrólogo não deve mentir aos seus clientes para fazê-los se sentirem bem. Nós preferimos ser o portador de boas notícias, mas a honestidade é um verdadeiro serviço, com a condição que tal honestidade esteja sintonizada com a receptividade dos clientes. “Este pode ser um momento para reavaliar alguns de seus apegos, pode ser um momento para ser mais firme com seus limites, ipode ser um momento para aceitar suas vulnerabilidades e avaliar se você pode contar com um bom suporte”.

Discutir a questão desafiadora em pequenas doses pode ajudar o cliente a processar melhor. Se houver mais material a ser processado, talvez seja necessário marcar uma outra sessão para acompanhamento.

 

Resultado: Os astrólogos frequentemente abordam questões e problemas muito delicados em uma consulta, portanto vale a pena considerar que um cliente precise processar essas dinâmicas gradualmente. Alguns clientes alegarão que querem saber tudo, e que o astrólogo não deva esconder nada deles. Ainda assim, é dever do astrólogo avaliar até onde eles realmente podem ou devem ir.

 

DECLARAÇÕES DETERMINÍSTICAS

 

Em minha experiência como profissional e com envolvimento com a comunidade, eu nunca me deparei com alguma técnica ou abordagem da astrologia que já tenha sido 100 por cento confiável. Nenhuma técnica preditiva provou nunca ter falhado, seja usando Métodos Védicos, Tradicionais ou Humanísticos de interpretação. A astrologia revela muita coisa, mas nunca tudo, e isso deve manter-nos humildes.

Portanto, nenhum astrólogo pode fazer declarações ou previsões absolutas sem o benefício da dúvida. Certamente existem vezes em que vemos maiores probabilidades de certos resultados, tendo em mente que a vida continua nos surpreendendo.

Declarações tais como “você nunca vai se casar,” ou “você terá uma doença em 2019,” ou, ao contrário, “você tem garantia de sucesso neste negócio”, pode ser muito prejudicial, não só porque elas podem ser angustiantes ou então gerar altas expectativas, mas porque o astrólogo não pode realmente reivindicar tal autoridade.

Reformulando estas declarações em uma linguagem mais sugestiva seria importante:

“ Vejamos algumas inibições em sua capacidade de confiar em relacionamentos”
ou
“Já que você está sob muito estresse de trabalho, seria uma boa ideia fazer um check-up e exames de sangue” ou “Há altas probabilidades de resultados promissores em seus negócios”.

 

Resultado: Sabemos haver um certo orgulho em se querer adivinhar ou em se fazer declarações determinísticas e absolutas por querermos prometer fortuna para poder fazer nosso cliente feliz ou por querermos demonstrar nossas habilidades. Reconhecendo nossa possibilidade de falha é o que nos tornará praticantes mais confiáveis.

 

DECLARAÇÕES GENÉRICAS “MÁGICAS”

 

Como mencionado anteriormente, preferimos ser portadores de boas notícias, e muitas vezes os astrólogos, especialmente aqueles que tenham uma abordagem humanista/moderna, podem forçar uma visão positiva em tudo até um ponto em que não prestem um verdadeiro serviço ao cliente.

Voltando a discussão do Trânsito Difícil, dizendo a um cliente que eles terão “uma transformação surpreendente” uma vez que Saturno em trânsito está vindo para se opor a sua conjunção Lua/Plutão, ou ainda mais genericamente, que “tudo vai ser ótimo”, ou “apenas se desapegue”, proporcionam uma falsa sensação de conforto. Algumas dessas declarações genéricas se aplicam frequentemente a todos em todas as situações, e enquanto eles servirem como sabedoria convencional, poderá não atender adequadamente às preocupações reais do cliente. Fornecer orientações mais específicas, pertinentes à questão, será mais útil para o cliente.

 

Resultado: Acolher somente o cliente não substitui a capacitação

 

 CONTEXTO SÓCIO-CULTURAL

 

Nesta era da Internet, muitos astrólogos são capazes de expandir sua prática além dos limites de seu próprio ambiente cultural. Isto realmente acontece em uma prática internacional, mas com tal expansão, considerações importantes precisam ser abordadas. Ler um mapa para alguém que vive no Oriente Médio será diferente de uma consulta para alguém que vive na Escandinávia. Por mais mundanos que sejam nossos clientes, os diferentes valores e ênfases passam pelo condicionamento cultural. Estas considerações culturais precedem o mapa astrológico. Não há um livro de receitas para nos ensinar a navegar nas inúmeras culturas, por isso pode ser útil fazer perguntas e descobrir diretamente de nossos clientes o que seria importante para eles.

Portanto, precisamos verificar nossos preconceitos próprios. Por exemplo, se o astrólogo é uma pessoa que acredita firmemente na liberdade individual e faz uma leitura para uma pessoa gay que não pretende sair do armário, existe uma necessidade de maior compreensão do contexto do cliente. Se o astrólogo se sentir confuso com o estilo de vida de seu cliente, pode ser melhor encaminhá-lo para outra pessoa.

 

Resultado: O mapa astrológico não mostra o gênero ou a cultura da pessoa, ou mesmo se o mapa for para um ser humano ou um animal. Portanto, fazendo perguntas e descobrindo algumas informações do passado sobre o cliente é essencial para se estabelecer um contexto para o mapa.

 

CONCLUSÃO

 

Não importa quão experiente se possa ser, a autocrítica nos tornará melhores astrólogos. Para mais informações sobre os Programas de Técnicas de Atendimento e Grupos em Pares do OPA, visite: https://www.opaastrology.org/opa-certification/certification-with-opa

 

Maurice Fernandez, autor dos livros: “Netuno”, “A Casa XII e Peixes” (Nova Edição), e “Astrologia e a Evolução da Consciência – Volume Um”, é um consultor e professor líder de Astrologia Evolutiva, atualmente sediada no Arizona. Maurice serviu como o presidente para “The Organization of Professional Astrology (OPA)” por três mandatos – 2014-2020. Ele dirige um programa de certificação profissional, apoiando, incentivando e criando uma futura geração de astrólogos. www.mauricefernandez.com

Facebook: https://www.facebook.com/maurice astrologia/

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